Editorial
Palavras-chave:
Estudos de Discurso, Textos Literários, Linguística, Pedagogia Crítica, Tecnologias EmergentesResumo
Editorial
A presente edição reúne artigos que, embora situados em campos distintos, convergem para uma mesma tese, a saber, a educação é uma prática ética, crítica e socialmente comprometida. No cárcere, na escola e no ensino de línguas, os textos evidenciam que ensinar implica acolher sujeitos concretos, atravessados por desigualdades, violências e silenciamentos, e criar condições para que possam falar, aprender existir e reexistir.
No contexto prisional, lemos sobre a urgência de ações voltadas ao fortalecimento da subjetividade através da produção de narrativas autobiográficas como forma de ressignificar experiências de sofrimento. A leitura, nesses textos, não aparece como atividade acessória, mas como prática humanizadora e anticolonial, capaz de abrir fissuras na lógica disciplinar e de transformar a cela em espaço de hospitalidade, cuidado e reinvenção de si. Isso implica em sensibilidade e a atenção às inúmeras vulnerabilizações de pessoas em privação de liberdade quais dimensões centrais de uma práxis educacional mais equitativa e pautada pela justiça social.
No ambiente escolar, a convivência ética e a avaliação surgem como contrapontos a modelos classificatórios e excludentes. Sobre convivência escolar lemos que o racismo e o desengajamento moral não são desvios pontuais, mas mecanismos cotidianos de desumanização, exigindo uma educação antirracista capaz de sustentar o pacto civilizatório e a dignidade das adolescências.
Outros textos salientam que é preciso dialogar criticamente com as TDICs e a inteligência artificial, reconhecendo textos digitais como objetos legítimos de ensino e os multiletramentos como condição para uma aprendizagem significativa. Também os discursos sobre a harmonização estética revelam tensões semelhantes entre autonomia e normatização. Ao analisar como a beleza é discursivamente construída, aprendemos sobre a força dos dispositivos de poder que regulam corpos e subjetividades, naturalizando padrões e desigualdades sob a linguagem da liberdade e do bem-estar.
Em conjunto, os manuscritos deste número reafirmam que educar é intervir no real com responsabilidade crítica, promovendo saberes, relações e práticas orientadas pela justiça social, pelo respeito à diversidade e pela transformação humana.
Capa
Il mondo difficile, obra de Bruno Catalano®, traduz visualmente o conjunto de ideias no editorial. A figura fragmentada, suspensa entre presença e ausência, sugere um sujeito em trânsito, marcado por perdas, deslocamentos e incompletude, mas ainda em movimento.
Como nas produções enviadas, o corpo não aparece como unidade estável, pois ele é atravessado por cortes, faltas e pressões externas, mas continua carregando sua história e sua resistência. Nesse sentido, essa imagem funciona como metáfora da condição contemporânea narrada pelos textos, a saber, pessoas racializadas, encarceradas, migrantes, etc. são frequentemente empurradas para margens sociais que as fragmentam, mas não as anulam.
O vazio deixado no corpo escultórico também pode ser lido como espaço de memória, voz e reexistência, isto é, o mesmo espaço que a leitura, a escuta e a convivência ética tentam reabrir.
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