A Gramática da bicha surda
corpo, gesto e resistência
Palavras-chave:
bicha surda, corpo-linguagem, dissidência, interseccionalidade, decolonialidadeResumo
Este artigo discute a produção de corpo, gesto e resistência a partir da experiência de uma bicha surda negra, tomando sua trajetória escolar e de vida como lugar de enunciação e de produção de saber. Ancorado em epistemologias surdas, estudos queer, interseccionalidade crítica e perspectivas decoloniais, o texto desloca a noção de inclusão para afirmar a bicha surda como sujeito político-epistêmico. Metodologicamente, articulamos escrita autoetnográfica com uma pesquisa de colaboração, realizada por meio de entrevista semiestruturada em Libras, gravada em vídeo, traduzida e transcrita em diálogo com o coautor surdo, com quem foram construídos e analisados eixos temáticos sobre corpo, desejo, escola, linguagem e afeto. A análise evidencia como a escola opera simultaneamente como dispositivo de normalização ouvinte, cisheteronormativa e branca, e como espaço de criação de brechas, a partir das quais, gestos, silêncios e desejos performados pela bicha surda instauram uma gramática própria, inassimilável pelas normas vigentes. Ao final, argumenta-se que essa gramática da bicha surda, entendida como corpo-linguagem em dissidência, produz outras pedagogias do gesto, da partilha e da resistência, contribuindo para repensar práticas escolares e pesquisas em educação que levem a sério as intersecções entre surdez, raça, gênero e sexualidade.
Referências
ABREU, Fabrício Santos Dias de. Experiências linguísticas e sexuais não hegemônicas: um estudo das narrativas de surdos homossexuais. 2015. 171 f., Dissertação (Mestrado em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde)—Universidade de Brasília, Brasília, 2015.
ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. 4. ed. San Francisco: Aunt Lute Books, 2012.
BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.
BRASIL. Lei n.º 10.436, de 24 abr. 2002. Reconhece a Língua Brasileira de Sinais – Libras. Diário Oficial da União, Brasília, 25 abr. 2002.
BRASIL. Decreto n.º 5.626, de 22 dez. 2005. Regulamenta a Lei 10.436/2002 e o art. 18 da Lei 10.098/2000. 2005. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/.../d5626.htm. Acesso em: 5 mar. 2024.
BRASIL. Lei n.º 14.191, de 3 ago. 2021. Altera a LDB para dispor sobre a modalidade de educação bilíngue de surdos. Diário Oficial da União, Brasília, 4 ago. 2021.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CABRAL, Rebeca Garcia; DIAS, Pâmela da Conceição Silva. "Tem bicha surda aí?”: Reflexões Sobre a Potência da Comunidade Surda LGBTQIA+. COR LGBTQIA+, [S. l.], v. 1, n. 3, p. 111–131, 2022. Disponível em: https://revistas.ceeinter.com.br/CORLGBTI/article/view/549. Acesso em: 10 dez. 2025.
CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the margins: Intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, p. 1241–1299, 1991.
Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1229039. Acesso em: 3 jul. 2025.
CUNHA FLÔR, Cícera Patrine; SOUSA, Rômulo de Lima; ROMÁRIO, Lucas. “Parece que eu tenho duas identidades, e é lindo! identidade surda e LGBT! eu sinto orgulho”!: língua de sinais, sexualidade e educação no contexto da comunidade surda. Diversidade e Educação, [S. l.], v. 12, n. 1, p. 348–370, 2024. DOI: 10.14295/de.v12i1.17400. Disponível em: https://periodicos.furg.br/divedu/article/view/17400. Acesso em: 10 dez. 2025.
FIDALGO, Sueli Salles; MAGALHÃES, Maria Cecília Camargo. Critical Collaborative Research. Psic. da Ed., São Paulo , n. 54, p. 107-117, jan. 2022 . Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-35202022000100107&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 04 jul. 2025.
GLLEMOS, Caroline. Línguas de fogo: poéticas visuais e insurreições surdas. 2020. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2020.
Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/216742. Acesso em: 3 jul. 2025.
LORDE, Audre. Irmã Outsider: ensaios e discursos. Tradução de Heloisa Pires Lima. São Paulo: José Olympio, 2021.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 1997.
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
NININ, Maria Otacília. Da pergunta como ato monológico avaliativo à pergunta como espaço para expansão dialógica. Campinas, SP: Pontes Editores, 2018.
QUADROS, Ronice Müller de. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2007.
ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Editora UFMG: Belo Horizonte, 2010. 135 p.
Downloads
Publicado
Como Citar
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Warley Almeida Santos, Erliandro Félix

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
Sob a égide da Lei º 9.610/1998 que altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais no Brasil, a Revista Ciência em Evidência (RcE) ressalta a natureza de acesso livre da revista e exige que o(s) autor(es) que submetem manuscritos científicos a este periódico observe(m) princípios éticos e respeite(m) o direito de propriedade intelectual sobre a obra em tela.
Portanto, o(s) autor(es) declara(m)-se titular(es) da propriedade dos direitos autorais do manuscrito submetido e, por conseguinte, não infringe(m) direitos autorais, de imagem e outros direitos de propriedade de terceiros. Logo, assume(m) integral responsabilidade moral ou patrimonial, pelo seu conteúdo, perante terceiros.
Desse modo, o(s) autor(es) autoriza(m), cede(m) e transfere(m) à Revista Ciência em Evidência (RcE) o direito de edição, de publicação, de tradução para outro idioma e de reprodução por qualquer processo ou técnica do manuscrito submetido sem direito à exigência de qualquer tipo de remuneração.