Crítica e Narrativas Anticoloniais na Cela-de-Aula
Palavras-chave:
Privação de Liberdade, Leitura, Anticolonialidade, NarrativasResumo
Considerando a persistente colonialidade do poder-saber-ser-prisão que silencia narrativas de pessoas privadas de liberdade em favor de modelos educacionais padronizados, como o rouxinol mecânico da fábula de Andersen (1843/2005), neste ensaio identifico o déficit de práticas emancipatórias no sistema penitenciário brasileiro. Desta maneira, meu objetivo é apresentar um projeto de clubes de leituras em penitenciárias do Estado de São Paulo, que promove a remição de pena através da produção de resenhas narrativas anticoloniais e autobiográficas que resgatam vozes silenciadas. A proposta é metodologicamente aplicada, participativa, fenomenológica e praxiológica por meio da seleção de obras, mediação de debates e validação de resenhas por bancas, com encaminhamento judicial para remição. O arcabouço teórico inclui narrativas autobiográficas (Lechner, 2012, 2023), ética do cuidado (Heidegger, 2008; Sá, 2023), educação como prática da liberdade (Freire, 1983), práxis anticolonial (Cusicanqui, 2021) e a plataforma foucaultiana (Foucault, 1987). Portanto, minhas percepções apontam para a emergência de vozes periféricas como atos performativos de resistência epistêmica, subvertendo a hiperinvisibilização e colonialidades de poder-saber-ser-prisão, além da ressignificação da cela-de-aula em locus de hospitalidade incondicionada e humanização, beneficiando apenados, a comunidade e epistemologias situadas com impacto transdisciplinar.
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