Linguagem e dominação

uma análise discursiva crítica do autoritarismo linguístico à luz de figuras midiáticas

Autores

  • Bruno Diego de Oliveira Clemente Universidade de São Paulo

DOI:

https://doi.org/10.47734/rce.v6iFC.2803

Palavras-chave:

autoritarismo linguístico, norma culta, análise discursiva crítica, discurso midiático

Resumo

O presente estudo analisa como o autoritarismo linguístico se manifesta nos discursos de Enéas Carneiro e Cíntia Chagas, figuras midiáticas inscritas numa posição política que representa a extrema direita brasileira, investigando como ambos, a partir de dois vídeos publicados na plataforma Youtube, utilizam a norma culta da língua portuguesa para legitimar práticas excludentes e reforçar hierarquias sociais. Baseando-se no modelo tridimensional de Norman Fairclough (1992) e em uma abordagem qualitativa, este texto explora aspectos textuais, discursivos e sociais, evidenciando a centralidade do preconceito linguístico na perpetuação de desigualdades culturais e sociais. O discurso de Enéas associa a norma culta a valores de moralidade, organização social e progresso, desvalorizando variantes populares ao descrevê-las como desvios da "higiene vernacular", da mesma forma em que Cíntia Chagas, em tom humorístico e enfático, ridiculariza expressões populares como top, propondo um vocabulário mais sofisticado que reforça a exclusividade da norma culta. Ambos recorrem à intertextualidade e à interdiscursividade, articulando a norma culta a valores nacionalistas e elitistas, desconsiderando a pluralidade e a legitimidade das variantes linguísticas no Brasil. Fundamentado também nas ideias de Marcos Bagno (1999), que caracteriza o preconceito linguístico como um mecanismo de exclusão social disfarçado de cuidado com a língua, o estudo justifica-se pela importância da valorização da diversidade linguística como parte da identidade cultural brasileira e no sentido de promover uma abordagem inclusiva que questione a visão hierárquica da língua portuguesa.

Biografia do Autor

Bruno Diego de Oliveira Clemente, Universidade de São Paulo

Mestrando em Estudos Linguísticos pelo Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA) da Universidade de São Paulo (USP). Bacharel em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com Certificado de Estudos em Assessoria Linguística e Políticas Públicas de Linguagem pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-Unicamp). Especialista em Ensino de Línguas pelo Instituto Federal de SP, campus Capivari (IFSP) e licenciado em Letras-Português e Literatura pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Tem interesse em pesquisas no campo da Aquisição de Linguagem, Análise do Discurso, Aprendizado de Língua Estrangeira, Interculturalidade, Literatura e Formação do Professor Bilíngue. Professor de idiomas desde 2011 (Inglês, Francês, Espanhol, Italiano e Alemão), tanto em escolas de idiomas quanto em ambiente particular. Trabalha também como consultor linguístico no aprendizado de língua estrangeira, coordenador pedagógico e tradutor (Inglês- Português e Português-Inglês) É membro do HYPIA ( The International Association of Hyperpolyglots).

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Publicado

02/18/2026

Como Citar

CLEMENTE, B. D. de O. Linguagem e dominação: uma análise discursiva crítica do autoritarismo linguístico à luz de figuras midiáticas. Revista Ciência em Evidência , [S. l.], v. 6, n. FC, p. e025009, 2026. DOI: 10.47734/rce.v6iFC.2803. Disponível em: https://ojs.ifsp.edu.br/cienciaevidencia/article/view/2803. Acesso em: 21 fev. 2026.