Linguagem e dominação
uma análise discursiva crítica do autoritarismo linguístico à luz de figuras midiáticas
DOI:
https://doi.org/10.47734/rce.v6iFC.2803Palavras-chave:
autoritarismo linguístico, norma culta, análise discursiva crítica, discurso midiáticoResumo
O presente estudo analisa como o autoritarismo linguístico se manifesta nos discursos de Enéas Carneiro e Cíntia Chagas, figuras midiáticas inscritas numa posição política que representa a extrema direita brasileira, investigando como ambos, a partir de dois vídeos publicados na plataforma Youtube, utilizam a norma culta da língua portuguesa para legitimar práticas excludentes e reforçar hierarquias sociais. Baseando-se no modelo tridimensional de Norman Fairclough (1992) e em uma abordagem qualitativa, este texto explora aspectos textuais, discursivos e sociais, evidenciando a centralidade do preconceito linguístico na perpetuação de desigualdades culturais e sociais. O discurso de Enéas associa a norma culta a valores de moralidade, organização social e progresso, desvalorizando variantes populares ao descrevê-las como desvios da "higiene vernacular", da mesma forma em que Cíntia Chagas, em tom humorístico e enfático, ridiculariza expressões populares como top, propondo um vocabulário mais sofisticado que reforça a exclusividade da norma culta. Ambos recorrem à intertextualidade e à interdiscursividade, articulando a norma culta a valores nacionalistas e elitistas, desconsiderando a pluralidade e a legitimidade das variantes linguísticas no Brasil. Fundamentado também nas ideias de Marcos Bagno (1999), que caracteriza o preconceito linguístico como um mecanismo de exclusão social disfarçado de cuidado com a língua, o estudo justifica-se pela importância da valorização da diversidade linguística como parte da identidade cultural brasileira e no sentido de promover uma abordagem inclusiva que questione a visão hierárquica da língua portuguesa.
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